quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Uma Parábola Moderna das Virgens Sábias e Tolas

Uma Parábola Moderna das Virgens Sábias e Tolas
– William L. Anderson

Texto traduzido da página particular do autor (LewRockwell.com, 2008)

Jesus começou a ensinar a multidão, trazendo sua mensagem na forma de parábolas. “Antes da festa de casamento”, ele começou, “havia dez virgens. Cinco delas haviam trazido um suprimento extra de óleo para suas lâmpadas, enquanto cinco tolas trouxeram o bastante apenas para um período curto.”
“Dali a algum tempo”, ele continuou, “as cinco virgens tolas perceberam que o óleo em suas lâmpadas estava acabando, e elas se viraram para as cinco virgens sábias e exclamaram: ‘Dêem-nos um pouco do seu óleo’, elas pediram, ‘caso contrário nossas lâmpadas irão apagar.’ ‘Nós não podemos fazer isso’, as cinco virgens sábias responderam, ‘pois não será suficiente e nenhuma das lâmpadas vai continuar acesa.’ ”
Enquanto Jesus começava a explicar a lição, o Rabino Frank, o Rabino Dodd, o Rabino Paulson e o Rabino Bush saíram da multidão para confrontá-lo. “Rabi”, eles disseram, “você não está se esquecendo que deve se preocupar com justiça social e equidade?”
“O que vocês querem dizer?”, perguntou Jesus, já incomodado com os quatro rabinos que interromperam a sua lição. Eles começaram: “Não é verdade que algumas virgens tinham mais óleo1 do que outras? Pode um tal estado das coisas ser permitido numa sociedade justa?” “Hmmm”, Jesus disse, “isto está começando a ficar interessante. Continuem.”
“Se há alguma necessidade”, continuou o Rabino Frank, “os outros não devem ir de encontro a ela?” O Rabino Dodd entrou na conversa: “Por que é permitido a essas cinco virgens sábias manter o óleo para si mesmas? Não deveriam elas abrir mão dele, em nome da justiça e da eqüidade?”
Jesus respondeu: “Eu vou fazer-lhes uma pergunta. Se as virgens sábias derem metade do seu óleo para as virgens tolas, não acabará acontecendo que, quando o noivo aparecer, não vai restar óleo algum no final das contas e todos serão deixados na escuridão?”
Então o Rabino Paulson elevou a voz. “Eu espero que você não vá apelar para a ganância”, ele falou para Jesus. “Essas virgens sábias têm uma obrigação social de não deixar as virgens tolas ficarem sem óleo”, ele disse. “Na verdade, as virgens tolas têm o direito de exigir uma ajuda de óleo!”
“Vocês ainda não responderam a minha pergunta”, falou Jesus. “Se as virgens sábias ajudarem as tolas, o noivo não vai ficar ainda pior por estar tudo escuro quando ele aparecer?”
“As virgens tolas não apenas têm o direito de exigir o óleo das virgens sábias, como também têm o direito de retirar óleo do próprio e apropriado Tesouro do Óleo”, declarou Paulson, parecendo muito orgulhoso de si mesmo. Jesus, perplexo com a declaração, perguntou: “Se elas pegarem das lojas, como irão pagar por ele?”
“Elas têm um direito àquele óleo!”, gritaram o Rabino Frank e o Rabino Dodd. “Além do mais”, eles emendaram, “mesmo que elas estejam apenas emprestando o óleo, no final nós simplesmente devemos a nós mesmos.”
Jesus não se deu por satisfeito. “Por que”, ele continuou, “todo mundo deve ser forçado a ficar no escuro porque algumas virgens não foram prudentes o bastante para trazer mais óleo? Não deveriam elas ser responsáveis pelos seus próprios julgamentos errados? Por que a tolice delas deve ser carregada por todos?”
Neste ponto, o Rabino Bush estourou de raiva. “Como você ousa satisfazer-se com tal status quo! Primeiro, aquelas virgens tolas foram vítimas, tendo em vista que não há suficiente óleo acessível, e não é correto que apenas alguns tenham todo o suprimento enquanto outros saem de mãos abanando!”
Ele continuou. “Segundo, a única solução justa é que as virgens sábias prestem ajuda às tolas, ou então as pessoas terão que viver na escuridão.”
“Hã”, Jesus replicou, “eu acho que nós já havíamos concluído que se o seu plano for colocado em prática, todos vão ficar no escuro.”
O Rabino Dodd interveio: “O Rabino Frank e eu há muito acreditamos que o óleo deveria ser acessível para todos, e é por isso que estivemos a trabalhar para aumentar o acesso de todos ao óleo.” “Eu sei”, respondeu Jesus, secamente, “o seu esquema empurrou o preço do óleo para tão alto que apenas aqueles que foram sábios e prudentes com seu dinheiro podem ter acesso a ele no final. Agora está mais difícil obter óleo do que nunca.”
O Rabino Paulson avançou com um largo sorriso no rosto. “É por isso que nós temos um plano especial”, ele contou a Jesus. “Virgens tolas podem emprestar todo o dinheiro que quiserem do Rei Herodes, que planeja ele próprio tomar esse dinheiro emprestado do povo.”
“E como o pagamento irá funcionar?” perguntou Jesus, preocupado. “Parece que o povo estará em débito sem esperança de retorno. Vocês não disseram estar tomando do povo para emprestar para o povo? Não diz o Livro de Provérbios que o devedor é escravo do credor?”
“Não na nossa economia”, replicou com orgulho o Rabino Paulson. “Nós estaremos em dívida conosco mesmos.”
E Jesus chorou.


NOTAS:
1 “óleo” = no original em inglês, "oil", palavra que pode ter significados diversos de acordo com o contexto: óleo de cozinha ou de carro, ou petróleo. O autor faz um jogo de palavras intraduzível ao brincar com o significado bíblico original (azeite, que na época de Jesus  também usado em iluminação) e o significado mais usual em Economia (petróleo).

sábado, 22 de agosto de 2009

Surfista Prateado - Parábola

Em cada civilização, em cada período da história, é verdade dizer: “Mostrem-me o tipo de deus que vocês possuem, e eu lhes direi que tipo de humanidade vocês possuem”.
– Emil Brunner,

teólogo cristão

Surfista Prateado – Parábola
– Stan Lee & Moebius


Reprodução integral da graphic novel Surfista Prateado #11 – Parábola, de Stan Lee & Moebius (Abril, 1989).




Para os interessados, duas excelentes resenhas estão disponíveis aqui e aqui (sendo a segunda voltada para educadores).

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Conto dos Três Irmãos

O Conto dos Três Irmãos

Texto extraído do livro Os Contos de Beedle, o Bardo, de J.K. Rowling (Rocco, 2008)

Era uma vez três irmãos que estavam viajando por uma estrada deserta e tortuosa ao anoitecer... Depois de algum tempo, os irmãos chegaram a um rio fundo demais para vadear e perigoso demais para atravessar a nado. Os irmãos, porém, eram versados em magia, então simplesmente agitaram as mãos e fizeram aparecer uma ponte sobre as águas traiçoeiras. Já estavam na metade da travessia quando viram o caminho bloqueado por um vulto encapuzado.
E a Morte falou. Estava zangada por terem lhe roubado três vítimas, porque o normal era os viajantes se afogarem no rio. Mas a Morte foi astuta. Fingiu cumprimentar os três irmãos por sua magia, e disse que cada um ganhara um prêmio por ter sido inteligente o bastante para lhe escapar.
Então, o irmão mais velho, que era um homem combativo, pediu a varinha mais poderosa que existisse: uma varinha que sempre vencesse os duelos para seu dono, uma varinha digna de um bruxo que derrotara a Morte! Ela atravessou a ponte e se dirigiu a uma árvore Anciã1, um vetusto sabugueiro na margem do rio, fabricou uma varinha de um galho da árvore e entregou-a ao irmão mais velho.
Então, o segundo irmão, que era um homem arrogante, resolveu humilhar ainda mais a Morte e pediu o poder de restituir a vida aos que ela levara. Então a Morte apanhou uma pedra da margem do rio e entregou-a ao segundo irmão, dizendo-lhe que a pedra tinha o poder de ressuscitar os mortos.
Então, a Morte perguntou ao terceiro e mais moço dos irmãos o que queria. O mais moço era o mais humilde e também o mais sábio dos irmãos, e não confiou na Morte. Pediu, então, algo que lhe permitisse sair daquele lugar sem ser seguido por ela. E a Morte, de má vontade, lhe entregou a própria Capa da Invisibilidade.
Então, a Morte se afastou para um lado e deixou os três irmãos continuarem viagem e foi o que eles fizeram, comentando, assombrados, a aventura que tinham vivido e admirando os presentes da Morte.
No devido tempo, os irmãos se separaram, cada um tomou um destino diferente.
O primeiro irmão viajou uma semana ou mais e, ao chegar a uma aldeia distante, procurou um colega bruxo com quem tivera uma briga. Armado com a varinha de sabugueiro, a Varinha das Varinhas, ele não poderia deixar de vencer o duelo que se seguiu. Deixando o inimigo morto no chão, o irmão mais velho dirigiu-se a uma estalagem, onde se gabou, em altas vozes, da poderosa varinha que arrebatara da própria Morte, e de que a arma o tornava invencível.
Na mesma noite, outro bruxo aproximou-se sorrateiramente do irmão mais velho enquanto dormia em sua cama, embriagado pelo vinho. O ladrão levou a varinha e, para se garantir, cortou a garganta do irmão mais velho.
Assim, a Morte levou o primeiro irmão.
Entrementes, o segundo irmão viajou para a própria casa, onde vivia sozinho. Ali, tomou a pedra que tinha o poder de ressuscitar os Mortos1 e virou-a três vezes na mão. Para sua surpresa e alegria, a figura de uma moça que tivera esperança de desposar antes de sua morte precoce surgiu instantaneamente diante dele. Contudo, ela estava triste e fria, como que separada dele por um véu. Embora tivesse retornado ao mundo dos mortais, seu lugar não era ali, e ela sofria. Diante disso, o segundo irmão, enlouquecido pelo desesperado desejo, matou-se para poder verdadeiramente se unir a ela.
Assim, a Morte levou o segundo irmão.
Embora a Morte procurasse o terceiro irmão durante muitos anos, jamais conseguiu encontrá-lo. Somente quando atingiu uma idade avançada foi que o irmão mais moço despiu a Capa da Invisibilidade e deu-a de presente ao filho. Acolheu, então, a Morte como uma velha amiga e acompanhou-a de bom grado, e, iguais, partiram desta vida.
 

NOTAS:
1 Estas "correções" foram feitas baseadas na edição manuscrita original, conforme a resenha da Amazon.com.
 

A moral de O Conto dos Três Irmãos não poderia ser mais clara: os esforços humanos para evadir ou superar a morte estão sempre fadados ao desapontamento. O terceiro irmão da história («o mais humilde e também o mais sábio») é o único que compreende isso, pois, tendo escapado uma vez da morte, por um triz, o melhor que poderia esperar era adiar o próximo encontro o máximo possível. O mais moço sabe que zombar da Morte – envolver-se em violência, como o primeiro irmão, ou ocupar-se da sombria arte da necromancia, como o segundo irmão – significa medir forças com um inimigo ardiloso que não pode perder. (...)
Em última análise, a busca pela Varinha das Varinhas corrobora uma observação que tive oportunidade de fazer muitas vezes no curso de minha longa vida: que os humanos têm um pendor para escolher precisamente as coisas que lhes fazem mal.
Qual de nós, porém, teria revelado a sabedoria do terceiro irmão, se lhe fosse oferecido escolher o melhor presente da Morte? Bruxos e trouxas são igualmente imbuídos de sede de poder; quantos teriam resistido à "Varinha do Destino"? Que ser humano, tendo perdido um ente amado, poderia resistir à tentação da Pedra da Ressurreição? Mesmo eu, Alvo Dumbledore, acharia mais fácil recusar a Capa da Invisibilidade; o que prova apenas que, esperto como sou, continuo sendo um bobalhão tão grande quanto os demais.
– Alvo Dumbledore


sábado, 18 de abril de 2009

BЯ - Salmo 150 - O Cosmos É O Seu Santuário

BЯ - Salmo 150 – O Cosmos É O Seu Santuário
– Ernesto Cardenal
Texto extraído e adaptado do livro Salmos, de Ernesto Cardenal (Civilização Brasileira, 1979).


Louvai ao Senhor no cosmos
Seu santuário
de um raio de 100.000 milhões de anos-luz
Louvai-O pelas estrelas
e pelos espaços interestelares
Louvai-O pelas galáxias
e pelos espaços intergaláticos
Louvai-O pelos átomos
e pelos vácuos interatômicos
Louvai-O com o violino e com a flauta
e com o saxofone
Louvai-O com os clarinetes e a trompa
com cornetas e trombones
com cornetins e trombetas
Louvai-O com violas e violoncelos
com pianos e pianolas
Louvai-O com blues e jazz
e com orquestras sinfônicas
com os spirituals dos negros e a 5ª de Beethoven
com guitarras e marimbas
Louvai-O com CD players
e com arquivos em MP3
Tudo o que respira louve ao Senhor
toda célula viva
Aleluia

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Cruzes voadoras

Uma pergunta que você começa a fazer a si mesmo é, ‘Será que nós seríamos a próxima civilização perdida?’. E eu penso que quando se olha para a nossa arrogância, nosso orgulho tecnológico, a crueldade e a depravação da civilização moderna, há um total desrespeito pelas tradições do passado. Nós de fato parecemos, em termos mitológicos, a próxima civilização perdida.
É o que as pirâmides me dizem. Que uma civilização pode alcançar um nível fantástico de avanço, e cair e ser esquecida, quase sem deixar vestígios de si, exceto por monumentos gigantescos que parecem emergir das névoas do passado, sem contexto ou antecedentes, apenas mistério puro e simples.
– Graham Hancock,

especialista em civilizações perdidas
em entrevista ao filme 10.000 a.C.


Cruzes voadoras
– Stella Carr



Texto extraído do livro Assombrassustos, de Stella Carr (Moderna, 1995).


A combinação de luzes coloridas do computador indica o código que eu devo usar. Aperto os botões com aquelas cores, e meu cartão magnético pula.
Pego o cartão e, seguindo os números, vou entrando pelos corredores do labirinto que é o prédio da escola. Em cada porta eu confiro a seqüência de cores. Se combinarem, eu introduzo o cartão e a porta se abre. Assim, os alunos novos como eu nunca se perdem, nem entram em salas erradas.
Os corredores pintados em branco-aluminizado lembram as paredes de antigos hospitais, do tempo em que as pessoas precisavam deles. Dizem que esses lugares eram tristes, sem cor, com pessoas doentes. Hoje isso já não existe, e os bancos de peças sobressalentes de agora são alegres e "arco-irisados". Já troquei um braço e duas pernas, mas ainda sou muito nova, e meu cérebro nunca foi transplantado.
Memórias preservadas em tubos de soluções químicas, extraídas dos cérebros mais geniais, são catalogadas e guardadas num laboratório especial da Área de Altos Estudos sobre Genes Humanos. Elas só são utilizadas em cursos de pós-graduação, depois de um exame para selecionar os alunos que estão num estágio bem avançado, a ponto de merecerem receber esse transplante de instrução extra. Nós, alunos comuns, temos que dar duro para aprender com o nosso próprio esforço e "agitar" os neurônios. O cérebro é como os músculos do corpo. Não pode ficar parado ou se atrofia.
A seta vermelha manda que eu siga à direita. Obedeço. É a primeira vez que entro numa estudoteca de classe superior. Fui aprovada nos testes e pude escolher minhas matérias. Optei pelo estudo-pesquisa de civilizações pré-atomianas.
Há muitas lendas sobre os tempos pré-atomianos, uma parte praticamente irrecuperável da Antigüidade – por causa da longa contaminação –, que acabou sendo totalmente soterrada nesses dois últimos milênios.
A mais incrível é a crença em "cruzes voadoras", que as pessoas supersticiosas ainda cultuam. Eram uma espécie de "pássaro de metal", com duas asas fixas. O objeto se movia numa só direção, e, dizem os esotéricos, era movido a jato. Alguns crentes mais fanáticos até afirmam que os modelos mais antigos tinham motores de pás nas asas, que rodavam com o vento.
É claro que os cientistas sérios riem disso. Como um objeto mais pesado que o ar poderia se manter suspenso, só rodando as pás com motores, em uma época que se desconhecia o controle molecular do magnetismo? Mas um pequeno grupo deles afirma que os pré-atomianos conseguiam isso e tinham esse tipo de veículo.
Eu não tenho preconceitos contra esses arquifísicos, e acho que tudo deve ser investigado. Por isso vou consultar uns disquetes figuro-sonoro-holográficos, que estão no arquivo morto, e já fora de uso, na sala especializada em historiografia pré-atomiana. Espero fazer alguma descoberta interessante!
O corredor da seta vermelha chegou ao fim. Abro a porta da sala com meu cartão-chave pessoal e me apresento ao mestre computador historiológico, digitando minha senha. Os botões luminosos me aceitam, confirmando meus horários. Terei aulas todos os dias.
Foi fácil conseguir vaga nesse setor. O estudo do passado não atrai muitos estudantes, são todos futuralistas. «Tudo o que existe, já se sabe», dizem, «está contido nos mestres computadores.» É só partir daí para as novas descobertas, e é tudo o que interessa.
O mestre computador historiológico é fantástico! Ele tem possibilidades quase infinitas de combinações para serem estudadas e cruzadas. Eu tenho aprendido coisas incríveis sobre os pré-atomianos. Parece que havia uma agressividade constante entre os povos daquele tempo, que se dividiam em pedaços separados de terra chamados "países", com linguagem, costumes e governos diferentes. Até fisicamente eles tinham uma estranha variedade de aparência, e chamavam isso de raças. Não controlavam o código genético, é a única explicação possível. Competiam entre eles (foi esse o termo usado pelo computador) e isso foi a provável causa da destruição geral.


Estou ficando fascinada pelos meus estudos. Mal saio da sala para me alimentar. Tenho descoberto coisas incríveis, cruzando dados do arquivo morto, e fico até com medo de falar sobre isso com meus colegas. Eles já me olham como um ser estranho, um desses fanáticos anticientistas, uma espécie de "charlatão" (o termo que eu encontrei no dicionário de palavras mortas armazenadas no mestre computador), e parece que se refere aos que enganam o povo com falsas ciências.
Enquanto eu não puder provar com minhas pesquisas arquiatomianas as minhas teorias sobre essa era, guardo segredo sobre os dados surpreendentes que achei.


Os pré-atomianos viviam em tubos furados de uma mistura estranha de tipos de material calcário esfarinhado, montado sobre um esqueleto de ferro. Chamavam a isso de "concreto armado". Diziam ser extremamente resistente. Eram enormes tubos, muito altos e cheios de furos, por onde entrava o ar contaminado. Isso porque a Terra tinha sido envenenada por todo tipo de poluição. O motivo de eles terem permitido isso é desconhecido. Parece ter havido um mau uso da natureza. Não existiam filtros purificadores automáticos como agora, e eles acabaram destruindo totalmente a flora e a fauna. Os pré-atomianos deviam ter uma inteligência muito pouco desenvolvida!
Outra informação que consta dessa era, e é difícil de acreditar, é que as pessoas passavam fome, não se instruíam, ficavam doentes e não faziam progresso. Tudo isso por causa da inexplicável troca de uma coisa a que eles davam o nome geral de "dinheiro". Ele não era real, e sim uma espécie de matemática fantasma, representada por alguma bugiganga de metal, bolinhas, continhas, ou seja lá o que fosse, ou números que os primitivos passavam de um computador para outro, e que umas pessoas tinham e outras não. A razão dessa confusa maneira de equilibrar a vida é desconhecida. Pessoas juntavam essa unidade fantasma, como crianças colecionam hologravuras, enquanto a vegetação e os animais morriam e as cidades se destruíam. E toda a civilização foi arrasada.
Um suicídio coletivo inexplicável! Se não foi algum tipo de ritual de alguma crença muito primária (dinheiro só podia ser um totem sagrado), está fora de nossa compreensão.
Isso tudo leva a uma avaliação de inteligência rudimentar e sem raciocínio lógico.
Que o povo dessa civilização brincou com o átomo, sem a mínima compreensão do potencial dele, está provado pela sua destruição.


Hoje fiz uma descoberta desconcertante. Os pré-atomianos tinham uma linguagem em código, de cerca de vinte e seis sinais, que se repetiam iguais em várias regiões do planeta, e que se ligavam em pequenos blocos desiguais em tamanho, formando tiras de caracteres. Parece que era um tipo de comunicação muito antiga e primitiva. Mas isso torna inegável que eles se entendiam de alguma forma mais evoluída do que apenas números e as tais bolinhas, continhas ou pedacinhos de metais.
Felizmente, tudo indica uma forma de linguagem que talvez possa ser decifrada e traduzida, tornando a arqueologia pré-atomiana um estudo sério, algo mais que uma coleção de lendas supersticiosas.


O mestre computador me indicou um lugar para escavações. A descoberta de um tipo de linguagem pré-atomiana estimulou o setor de altos estudos a levar adiante minha pesquisa, agora com todo o apoio e recursos necessários para penetrarmos nessa noite escura do passado.
Segundo velhíssimos registros, até hoje não considerados cientificamente, há uma lenda que fala de um tesouro de valor inestimável, o maior valor da civilização pré-atomiana. Algo que não tinha nada a ver com aquelas tais unidades de metaizinhos, bolinhas e continhas.
Parece que, sabendo que iam ser exterminados, alguns pré-atomianos quiseram deixar uma herança para as civilizações futuras. E escolheram um lugar para isso.
Assim, consegui reunir algumas pessoas curiosas como eu para me ajudarem nas escavações. Vou começar a escrever um diário de campo.






Diário de campo




Primeiro dia: As escavações começaram. Esse lugar foi abandonado por causa de radiações. Tivemos que usar roupas especiais para a pesquisa.


Segundo dia: Os robôs escavadores abriram a primeira camada de terra e rochas, mas não encontraram nada. Só cinzas, como se esperava. A radiação já devia ter se dispersado, depois de todos aqueles séculos, mas nós nos mantivemos à distância e trabalhamos por controle remoto. É um cuidado que já vem de gerações e faz parte de nossos hábitos em pesquisas.


Terceiro dia: Hoje encontramos uns tubos completamente fechados, numa profundidade de vinte metros. O nível de radioatividade era de “alerta”. Os robôs transportaram os tubos para um lugar seguro e os desirradiaram. Estamos esperando o período de quarentena para abri-los. O entusiasmo é enorme e contagiante, mas a ordem é obedecer e manter a prudência, e não há como desobedecer num caso desses.
___


Trigésimo dia: Finalmente vamos abrir os tubos. Estamos tremendamente ansiosos para saber qual é o “maior tesouro, de valor inestimável” da extinta civilização pré-atomiana, a herança que eles nos legaram, que sobreviveu a toda a vida no planeta. É o que sobrou de uma humanidade inteira!


Trigésimo primeiro dia: Estamos muito confusos e desnorteados. É que dentro desses tubos, guardados por todos esses anos e tão cuidadosamente preservados, encontramos apenas uma enorme quantidade de quadrados de certa matéria frágil e extinta chamada "papel". Os quadrados são costurados e têm uma capa dura. Estão cheios de sinais indecifráveis.
Vou desenhar aqui os sinais que estão marcados no rótulo desses objetos:


Livros


Será que algum dia decifraremos estes sinais? Só aí saberemos porque eles foram preservados como um tesouro.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Jesus e os adoradores

Jesus e os adoradores


Texto extraído do livro O Jesus Muçulmano, organizado por Tarif Khalidi (Imago, 2001), história #159

1 Conta-se de Jesus que ele certa vez encontrou um grande grupo de adoradores que haviam murchado de tanto adorar, como gastas bolsas d'água. “Quem sois vós?”, ele perguntou. “Somos adoradores”, responderam. “Por que adorais?”, ele perguntou. Eles responderam: “Deus nos pôs o medo do inferno, e ficamos com medo.” Então ele disse: “Cabe a Deus salvar-vos do que temeis.”2 Depois passou por eles e encontrou outros que eram adoradores. Perguntou: “Por que adorais?”, e eles responderam: “Deus nos deu o desejo do paraíso e do que Ele preparou lá para Seus amigos.” Então disse Jesus: “Cabe a Deus dar-vos o que esperais.”2 Depois passou por eles e encontrou outros que estavam adorando e disse: “Quem sois vós?” Eles disseram: “Somos amantes de Deus. Nós O adoramos não por medo do inferno nem por desejo do paraíso, mas por amor a Ele e para Sua maior glória.” Então disse Jesus: “Sois verdadeiramente os amigos de Deus, e foi convosco que me mandaram viver.” E residiu entre eles.

NOTAS:
1 Uma frase que considerei inadequada, presente no texto original traduzido por Khalidi, foi aqui excluída: «Disse Jesus: “O amante de Deus adora o sofrimento.”»
2
N.T.: Em outra versão, divulga-se que ele disse aos primeiros dois grupos: “É uma coisa o que temeis/amais”, e ao terceiro grupo: “Sois verdadeiramente os mais próximos de Deus.”


Amar a Deus desinteressadamente, nem por medo do inferno nem por desejo do paraíso, era um sentimento atribuído aos primeiros sufistas – por exemplo, a famosa rabina mística Rabi‘a al-‘Adawiyya (c. 801 A.D.), que foi vista andando pelas ruas de Bagdá com um balde d'água numa mão e uma tocha acesa na outra. Quando lhe perguntaram por que fazia aquilo, ela respondeu: “Quero apagar os fogos do inferno com a água e arrasar o paraíso com a tocha, para que as pessoas possam vir a amar Deus desinterassadamente, nem por medo de um nem por desejo de outro.”
– Tarif Khalidi




Mais informações sobre Rabi‘a al-‘Adawiyya e um curto e belo poema de sua autoria (diretamente relacionado ao tema) podem ser lidos, respectivamente, aqui e aqui.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Foi assim que aconteceu (Isaac Asimov)

Foi assim que aconteceu
– Isaac Asimov
Texto extraído do livro Os Ventos da Mudança, de Isaac Asimov (Hemus, 1983).


Nem tudo que faço dá certo. Tinha em mente, em junho de 1978, escrever uma história cômica do mundo numa série de cenas engraçadas, principalmente porque imaginei o que me pareceu ser uma cena muito engraçada, para começar.
Desgraçadamente, a cena engraçada que imaginei para o começo foi a única cena engraçada que consegui desenvolver. Assim, desisti do projeto. Chamei ao começo do livro-que-não-saiu-da-panela “How it Happened”, ofereci-o a George Scithers, e foi publicado na Asfam na primavera de 1979.

Meu irmão começou a ditar, em seu melhor estilo oratório, aquele que mantém as tribos dependuradas em suas palavras.
– No princípio – dizia ele, – exatamente há quinze vírgula dois bilhões de anos, houve uma grande explosão, e o universo...
Mas parei de escrever. – Quinze bilhões de anos? – disse, incrédulo.
– Absolutamente certo – alegou ele. – Estou inspirado.
– Não estou questionando sua inspiração – disse eu. (Era melhor que não. Ele é três anos mais jovem que eu, mas não procuro questionar sua inspiração. Nem ninguém mais, ou já sabem o inferno que terão de agüentar.) – Mas você vai contar a história da Criação por um período de quinze bilhões de anos?
– Preciso – disse meu irmão. – Foi o tempo que levou. Tenho tudo aqui – e bateu em sua testa – a mais alta autoridade.
Mas eu já tinha pousado meu estilete. – Sabe quanto está custando o papiro?
– Quê? – (ele podia ser inspirado, mas freqüentemente notei que a inspiração não incluía assuntos sórdidos como o preço do papiro).
– Suponha que você descreva um milhão de anos de eventos em cada rolo de papiro. Isso quer dizer que você precisará de quinze mil rolos. Precisará falar o bastante para encher todos eles e sabe que vai começar a gaguejar, depois de algum tempo. Vou precisar escrever o suficiente para encher todos eles e meus dedos vão cair. E, mesmo que pudéssemos pagar todo esse papiro, e você tivesse a voz, e eu a força, quem vai copiar? Precisamos ter garantidas umas cem cópias antes de podermos publicar e, sem isso, de onde virão os nossos royalties?
Meu irmão pensou um pouco. – Acha que devo resumir?
– Bastante, se espera atingir o grande público.
– Que tal uns cem anos?
– Que tal seis dias?
Ele replicou, horrorizado: – Você não pode espremer toda a Criação em seis dias!
– É todo o papiro que tenho. O que você acha?
– Ora, está bem – e começou a ditar de novo: – No princípio... – Precisam ser seis dias, Arão?
E eu respondi, firme: – Seis dias, Moisés.