sexta-feira, 1 de julho de 2011

Professor de verdade

Era uma vez uma professora muito maluquinha. …
As velhas professoras não entendiam nada. “Os alunos dela acham melhor ficar na sala de aula do que brincar no recreio.” E repetiam: “Esta menina é mesmo muito maluquinha.”
– Ziraldo, escritor,
no livro Uma professora muito maluquinha
(Melhoramentos, 1995)

Professor de verdade
– Lucas Medeiros Bonjardim
Texto extraído do livro Os papéis de Lucas – pequeno inventário de um adolescente, de Júlio Emílio Braz – "diariografado" pelo adolescente Lucas Medeiros Bonjardim (Ediouro, 2003)


Oigalê! Tem professor novo na área.
Biologia.
O velho Teufel finalmente se cansou da gente e foi embora. Deve ter voltado pra Santa Cruz do Sul.
Professor Cláudio. Pras gurias, que não param de babar por ele, um verdadeiro gatão de meia-idade. Usa rabo-de-cavalo. O jeans tá meio velho. O carro anda sabe-se lá Deus como de tão velho que é.
Demos a ele uma grande recepção. O vivente não disse nada. Continuou dando sua aula e fingiu que não era com ele. Teve gente que achou que ele não voltava. Acho que todo mundo quebrou a cara. Deu pra ver pelo sorriso dele quando saiu e disse:
“Cavalo manso é pra ir à missa.”
Ah, ele volta, volta sim.

(…)

O nome dele é Cláudio. Biologia. Professor de Biologia. Ocasionalmente. Na verdade, o cara vai bem mais além das mitocôndrias e das fagocitoses. O cara é 10. É um daqueles professores tão raros quanto marcantes na vida da gente. Todo mundo tem um. Até meu pai ainda se lembra de um tal professor Zorzi, de Matemática, que encheu sua vida de propósitos mais do que de números, e minha mãe vive contando historias de uma certa Irmã Frida, do Madre Imilda. Tio Nelson vive falando de um louco que ensinava História em sua escola, em Flores da Cunha, e que um dia alguns homens da polícia levaram para nunca mais. Tia Bibiana é professora e aposto qualquer coisa que vai deixar marcas tão profundas nas almas de seus alunos quanto o Cláudio deixou nas nossas.
Ele é professor no sentido mais amplo da palavra. Seus conhecimentos vão muito além da matéria que ensina. Fala de tudo e qualquer coisa. Nunca se omite. Tem opinião a respeito de tudo e a gente sabe como gente assim faz inimigos, né?
A verdade é para os fortes como a violência para os tolos e ignorantes. Nem todo mundo está preparado para ela.
Cláudio é daqueles de fazer desaparecer qualquer dúvida de nossas cabeças no momento em que abre a boca. Abre a cabeça de todos e a enche de ideias. Não as suas, mas as de incontáveis outros homens. O mais interessante é que ele sabe abrir a sua cabeça e encher com o que lhe oferecemos. Nada se perde nas aulas dele. Essa é a maior diferença dele para os outros professores, gente como a Marlene, profê de Português. Matéria. Matéria. Matéria. O falso respeito de quem pensa ser o portador de conhecimentos valiosíssimos com os quais semeará o deserto de nossas consciências e inteligências.
Cláudio ouve e não foge de nenhum assunto. De vez em quando, abandona o citoplasma e parte pra uma de falar sobre AIDS, sobre o mais recente escândalo de corrupção em Brasília.
É… vende caro suas crenças e tem personalidade suficiente para curtir o apelido que os outros professores puseram nele…
"Cláudio, o Vermelho."

Mesmo quando pintava um pai enfurecido na escola dizendo que ele estava transformando seu filho num comunista ou qualquer outra bobagem parecida, Cláudio tirava de letra, colocava pai e coordenador no bolso e seguia em frente, sorriso largo na cara, mais e mais ideias na cabeça vermelha (seus cabelos eram tão ralos quanto vermelhos).
Era um Dom Quixote escolar. Achava que podia mudar o mundo a partir de nossas cabeças. Montado no pangaré metálico que ele chamava de carro, um Fusca 66 de péssimo aspecto e grande má fama (dizia-se que ele costumava enchê-lo com suas alunas do Magistério e transformá-lo num tremendo motel sobre rodas), armado com a fartura de seu salário e protegido pela armadura sólida de suas convicções, o cara não estava nem aí para desânimos e encarava todas. No auge de seu entusiasmo, pirava direto e vivia repetindo frases do livro Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto, seu favorito.
“Uma mente aberta pode mudar uma vida e uma vida que se transforma também transforma o mundo.”
Frase dele.
Nada quebrava seu espírito ou derrubava suas esperanças. Foi com ele que aprendemos a acreditar em tudo, a começar pela vida. Por isso, não rolou nenhuma palavra ruim e nem mesmo raiva ontem quando ele veio se despedir de nós.
A revolução estava encerrada naquela escola. Ele fora demitido. Marcharia sozinho para a próxima batalha, sedento de mentes preguiçosas e olhares descrentes.
Continuamos nossa marcha sem ele ao nosso lado, mas escolhemos um lugar e tanto para Cláudio em nossos corações e em nossas mentes.
Cláudio, o Vermelho.
Cláudio, um professor de verdade.

Se quiser saber mais sobre o livro, visite a comunidade no orkut e/ou o blog (aparentemente não oficial, mas apresenta uma boa sinopse do livro). O livro pode ser comprado com facilidade na Estante Virtual.

domingo, 11 de outubro de 2009

BЯ - João 4.1-33 – Jesus conversa com um gay

Este texto é, quase em sua totalidade, uma mera tradução da impressionante e heterodoxa paráfrase publicada por Steve F. em seu blog, Ragamuffin Ramblings; esta postagem do blog recebeu o sugestivo título “Just How Shocking Is The Gospel?”. “Se for bom, é Deus; se feder, provavelmente é o Steve” – Steve F.


 
BЯ - João 4.1-33 – Jesus conversa com um homem gay
1 Em meados de julho, o Sínodo Metropolitano de Chicago ouviu falar que Jesus estava atraindo mais visitantes e batizando mais adultos do que qualquer outro pastor da
ELCA1 na cidade 2 – embora não fosse realmente Jesus quem os estivesse batizando, e sim sua equipe irregularmente-comissionada de ministros leigos não-ordenados2. 3 Quando Jesus ficou sabendo disso, ele deixou o seminário no Hyde Park e dirigiu-se mais uma vez ao Q.G. da ELCA na Rua Higgins.
4 Para chegar lá, ele tinha que passar por uma região logo ao norte do centro da cidade chamada Boystown. 5 Então, ele chegou a uma parte de Boystown chamada Northalsted, não muito longe do terreno onde o Imperador Prefeito Daley ordenou que o Chicago Cubs jogasse beisebol. 6 O Estádio do Cubs não estava muito longe dali, e Jesus, cansado como estava da jornada pela Red Line, sentou-se numa mesa plástica do lado de fora do bar conhecido como Hydrate3. Era a hora do almoço, e embora as bandeiras arco-íris estivessem ondulando ao vento e a música dentro do bar estivesse bombando, não havia muitas pessoas nas redondezas (porque ali, em Chicago, com freqüência fica quente e miserável na metade do dia em meados de julho).
7 Um garçom veio até a mesa, vestindo uma camiseta arcoirisada com a estampa "Ele + Ele" e uma pulseira de borracha com "Silêncio = Morte", erguendo uma sobrancelha ao ver o homem sentado na mesa à sua frente vestindo a camiseta "Siga-Me". Jesus disse a ele: “Você poderia me arranjar algo para beber?” 8 (Os ministros leigos haviam descido a rua para comprar alguns sanduíches no Subway para o resto da jornada.)
9 O homem gay disse a ele: “Ei... eu é que te pergunto. Afinal, você parece ser um cristão hétero, e eu sou um homem homossexual. Encare os fatos – nós não temos muitos caras religiosos aqui em Boystown, pra não falar de lugares como este. E eu não sou apenas um homem homossexual, sou um homem homossexual muçulmano. Então como é que um cara como você vem aqui pedir uma bebida para alguém como eu?” (Pois os cristãos não se associam com homossexuais, e nem com muçulmanos, sempre que possível.)
10 Jesus lhe respondeu: “Se você conhecesse o dom de Deus e quem lhe está pedindo uma bebida, você lhe teria pedido e ele lhe teria dado água viva.”
11 “Ei, senhor”, o homem gay respondeu, “eu é que sou o garçom aqui. Não estou vendo nenhuma comanda ou bandeja com você, e já é difícil para os fregueses conseguirem chegar à nossa estação-fonte de bebidas, quanto mais ao nosso bar. Então como é que você quer me arranjar algo para beber, sem falar dessa tal 'água viva'? Onde é que você vai conseguir essa água? 12 Por acaso você é maior do que as pessoas que são os donos deste lugar, que nos deixam beber água e refrigerante de graça (e experimentar o drinque misto ocasional) quando nós bem entendemos?”
13 Jesus respondeu: “Quem beber da sua água, ou do seu refrigerante, ou da sua cerveja terá sede outra vez, 14 mas quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede. Ao contrário, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água a jorrar para a vida eterna.”
15 O homem gay lhe disse: “Sério? Cara... sabe, eu não faço a menor idéia de quem você realmente é, nem mesmo de que diabos você está falando. Mas você é o primeiro homem cristão em 20 anos que não me tratou como lixo, ou me chamou de 'abominação' na minha cara. De alguma forma, eu acho que eu quero algo do que você está me oferecendo. Me dê um pouco desta água de que você fica falando, pra que eu não fique mais com sede e tenha que ficar voltando aqui para pegar algo para beber.”
16 Jesus lhe disse: “Ok – é só chamar sua esposa e voltar aqui, e conversamos.”
17 “Isso por acaso é uma piada?”, o homem gay lhe disse. “Você não se tocou de onde está? Você está em Boystown, falando em alto e bom tom. Eu não tenho uma esposa, ou uma namorada. Droga, neste exato momento eu nem ao menos tenho um namorado”, ele respondeu.
Disse-lhe Jesus: “Você falou corretamente, dizendo que não tem namorado. 18 O fato é que você já teve cinco namorados, e esse com quem você está morando agora nem sequer é seu namorado. Ele é só um cara com quem você ficou na boate – um que nem sequer sabe o seu verdadeiro sobrenome.”
19 “Calmaí, parceiro”, o homem gay disse, “assim já é demais! Como é que tu sabia isso sobre mim?” Jesus ficou em silêncio. “Ah... já sei. Talvez você seja um daqueles tipos que consegue enxergar dentro das pessoas – tipo um daqueles caras que têm o 'terceiro olho'. Talvez você seja uma daquelas pessoas que 'têm o Espírito', como aqueles pastores da tevê falam. 20 Eu não entendo de nada disso. Minha família – o meu povo (quero dizer, aqueles que levam o troço a sério
) – acha que você tem que rezar cinco vezes por dia a Alá para conseguir esse tipo de poder. O resto das pessoas que eu conheço nem se importa com essa encheção-de-lingüiça espiritual... eles acham simplesmente que você tem que trabalhar muito, parecer legal, viver no máximo, ser duro de matar e deixar pra trás um cadáver apresentável4. E todos os cristãos que eu já conheci acham que eu tenho que orar do jeito deles, e começar a viver do jeito deles, ou eu estarei 'indo pro inferno'. De qualquer forma, meu dia-a-dia é tão vazio, que eu fico em dúvida se eu já não estou no inferno. No que que um cara deve acreditar?”
21 Jesus declarou: “Creia em mim, meu amigo, está próxima a hora em que vocês não adorarão a Deus em Meca, ou numa academia, ou numa boate, ou num santuário de igreja. 22 Você e seus amigos adoram o que vocês acham que conhecem, mas não conhecem. Os cristãos adoram o que eles realmente conhecem, pois a salvação é prometida nas Escrituras. 23 No entanto, está chegando a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, pois é este tipo de adorador que o Pai procura. 24 Deus é espírito, e é necessário que Seus adoradores O adorem em espírito e em verdade.”
25 O homem gay disse: “Eu sei que o pessoal da igreja diz que o Salvador deles está chegando. Quem sabe quando ele chegar aqui, ele explicará tudo para nós.”
26 Então Jesus declarou: “Então não espere mais. Sou eu quem eles estão esperando.”

Os ministros leigos irregularmente-comissionados voltam a Jesus
27 Naquele momento os ministros leigos voltaram e ficaram um pouco mais do que surpresos ao encontrar Jesus aparentemente conversando com um homossexual – um que parecia ter um certo quê de Oriente Médio, pra início de conversa. Mas ninguém perguntou: “O que você quer?”, ou “Por que você está falando com ele?”.
28 Então, deixando para trás a comanda e a bandeja na mesa, o homem gay dirigiu-se ao bar, e foi até a porta do ginásio e as de outras boates, e disse às pessoas: 29 “Vocês têm que vir e ver isto... venham ver um cara que me disse tudo o que eu já fiz, e não saiu de perto ou agiu me desprezando. Será que é este 'o Cristo' de quem todos aqueles religiosos vivem falando?” 30 Veio gente da academia, e saíram outros dos bares e boates, e foram em direção a ele.
31 Enquanto isso os ministros leigos (aqueles que se achavam os discípulos de Jesus) continuavam falando: “Ei, sua santidade, você pode até andar sobre as águas, mas qualé – até o Michael Jordan tem que comer alguma coisa.” 32 Mas Jesus lhes disse: “Eu tenho uma fonte de energia sobre a qual vocês nada sabem.”
33 Então os discípulos disseram uns aos outros: “Será que alguém arranjou alguns biscoitos do Mrs. Field's pra ele enquanto não estávamos olhando?”
...

Muitos gays e lésbicas crêem
39 Muitos dos gays e lésbicas que se ajuntaram dos arredores de Boystown acreditaram em Jesus por causa do que o garçom disse: “Vocês têm que vir e ver isto... venham ver um cara que me disse tudo o que eu já fiz, e não fugiu de perto ou agiu com nojo.” 40 Assim, quando as pessoas daquela região – homens gays, lésbicas, bissexuais (até mesmo pessoas em união civil de Vermont e episcopados visitantes de New Hampshire) – vieram até ele, eles insistiram que Jesus ficasse com eles. Então, ao invés de seguir caminho pela Rua Higgins, os ministros leigos irregularmente consagrados encontraram alguns quartos numa pousada próxima, e ficaram em Boystown – em meio às pessoas com as quais a maioria dos cristãos não se associaria – por dois dias. 41 E por causa do que Jesus disse aos homens e mulheres ali, muitos outros creram.
42 As pessoas que ouviram Jesus disseram ao homem gay que o encontrou primeiro: “Agora cremos não somente por causa do que você disse, pois nós mesmos o ouvimos e sabemos que este homem é realmente o Salvador do mundo.”


Pois é, Virginia – é isso aí... O Evangelho realmente É mesmo chocante.
– Steve F.

NOTAS:
[1] “ELCA” = Evangelical Lutheran Church in America, Igreja Evangélica Luterana na América.
[2] “ministros leigos não-ordenados” = vamos escutar o próprio Steve F. comentar sobre essa expressão. «Uns poucos comentários foram feitos sobre o meu uso do termo "ministros leigos irregularmente-consagrados" ao invés de "discípulos". Este é um in-sutil cutucão na minha denominação, que regularmente reivindica ser "o sacerdócio de todos os crentes", mas estabelece que sacramentos (como o batismo) são coisas que podem ser feitas apenas por ministros regularmente consagrados e ordenados. Pode me chamar de herege (e entrar na fila, por favor...), mas eu acredito que a presença da Palavra, da água, das pessoas e do Espírito Santo era o suficiente para a época de Jesus... o que é diferente agora?...».
[3] Quando li o post original pela primeira vez, supus que o autor tivesse inventado as referências e localidades descritas. Ledo engano! Todas as localidades citadas no texto são reais: o Sínodo Metropolitano de Chicago, alguns seminários no Hyde Park, o prédio da ELCA na Rua Higgins, Boystown, Northalsted, o estádio do Chicago Cubs, a Red Line (Linha Vermelha), o bar Hydrate, e até mesmo o Subway e o Mrs. Field's Cookies! (Não tenho certeza absoluta se os endereços dos dois últimos estão corretos; possíveis correções são bem vindas.)
[4] No original em inglês, a frase era “work out a lot, look good, live fast, die hard and leave a good-looking corpse” provavelmente derivada da frase tornada famosa por James Dean, “live fast, die young and leave a good-looking corpse”, dificilmente traduzível (referências em inglês e português, respectivamente, aqui e aqui ), e do filme de Bruce Willis, Duro de Matar (no original em inglês, Die Hard).

Vale a pena prosseguir com alguns poucos comentários. A postagem original no blog (em inglês) foi muito lida e comentada. As alterações deliberadamente feitas aqui são as seguintes: 1) O garçom homossexual foi originalmente caracterizado usando uma camiseta rosa-claro com a estampa "Ele + Ele", e uma faixa no braço com "Silêncio = Morte" (v. 7, no post original); um homossexual real, ao ler o texto, disse que gays assim existem praticamente apenas no imaginário dos religiosos – daí a mudança da coloração da camiseta e a substituição da faixa de braço por uma pulseira de borracha, um item mais comum. 2) Muitos cristãos ficaram irritados ao verem-se “cuspindo nos homossexuais” (v. 15, no post original), visto que nem todos agem assim; tal imagem foi um pouco eufemizada aqui com “tratar como lixo”. 3) Uma terceira crítica é que, tecnicamente, Jesus não era "cristão" ou diretamente ligado a eles (ainda) – o autor original cogitou trocar esta expressão por "pessoas religiosas"; porém, a meu ver isto tiraria o enfoque cristão que este site deseja colocar em evidência. Finalmente, uma das maiores críticas ao texto foi a ausência da parte do arrependimento – «Vá e não peques mais» –, ao que o autor replica que esta frase simplesmente inexiste em João 4; esta observação é bem apresentada (juntamente com muitas outras) por Joel Parsons, em seu blog The Bench. Porém, isto deixa uma lacuna incômoda na questão não-respondida da natureza pecaminosa (ou não) da homossexualidade: neste ponto, é muito proveitoso ler a “continuação” da paráfrase levada adiante por Tony Rose (GalatiansC4V16) e apresentada em português a seguir.

BЯ - Marcos 10.17-27 / Lucas 18.18-27 / Mateus 19.16-26 – Jesus conversa com um jovem gay
17 Quando Jesus ia saindo de Boystown, um certo jovem gay, vestindo uma camiseta arcoirisada com a estampa "Ele + Ele", correu em sua direção e se pôs de joelhos diante dele. “Bom mestre, que farei para herdar a vida eterna?”
18 Respondeu-lhe Jesus: “Por que você me chama 'bom'? Ninguém é bom, a não ser um, que é Deus. 19 Se você quer entrar na vida, obedeça aos mandamentos. Você conhece os mandamentos: «Não matarás, não adulterarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não enganarás ninguém, honra teu pai e tua mãe».”
20 E ele declarou: “Mestre, a tudo isso tenho obedecido desde que eu percebi que era... 'diferente'.”
21 Jesus olhou para ele e o amou. “Falta-lhe uma coisa”, disse ele. “Vá, termine o seu relacionamento sexual com o seu amante e use esse tempo e energia para ajudar os outros, e você terá um tesouro no Céu. Depois, venha e siga-me.”
21 Ouvindo isso ele ficou muito triste, porque gostava do sexo gay, e estava apaixonado por seu parceiro compromissado. Ele era também um líder respeitado na denominação PCUSA
5, um fundador da organização GLSEN6.
23-25 Jesus olhou para ele e disse: “Como é difícil a um homem gay entrar no Reino de Deus! De fato, é mais fácil para um vírus HIV passar através de uma camisinha, do que para um homem gay entrar no Reino de Deus.”
26 Os ministros leigos que estavam presentes ficaram ainda mais admirados com as suas palavras, e perguntaram: “Então quem pode ser salvo?”
27 Jesus olhou para eles e respondeu: “Para o homem isto é impossível, mas não para Deus; todas as coisas são possíveis para Deus.”


NOTAS:
[5] “PCUSA” = Presbiterian Church (U.S.A.), Igreja Presbiteriana (E.U.A.).
[6]
“GLSEN” = Gay, Lesbian and Straight Education Network, Rede Educacional Gay, Lésbica e Hétero.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Uma Parábola Moderna das Virgens Sábias e Tolas

Uma Parábola Moderna das Virgens Sábias e Tolas
– William L. Anderson

Texto traduzido da página particular do autor (LewRockwell.com, 2008)

Jesus começou a ensinar a multidão, trazendo sua mensagem na forma de parábolas. “Antes da festa de casamento”, ele começou, “havia dez virgens. Cinco delas haviam trazido um suprimento extra de óleo para suas lâmpadas, enquanto cinco tolas trouxeram o bastante apenas para um período curto.”
“Dali a algum tempo”, ele continuou, “as cinco virgens tolas perceberam que o óleo em suas lâmpadas estava acabando, e elas se viraram para as cinco virgens sábias e exclamaram: ‘Dêem-nos um pouco do seu óleo’, elas pediram, ‘caso contrário nossas lâmpadas irão apagar.’ ‘Nós não podemos fazer isso’, as cinco virgens sábias responderam, ‘pois não será suficiente e nenhuma das lâmpadas vai continuar acesa.’ ”
Enquanto Jesus começava a explicar a lição, o Rabino Frank, o Rabino Dodd, o Rabino Paulson e o Rabino Bush saíram da multidão para confrontá-lo. “Rabi”, eles disseram, “você não está se esquecendo que deve se preocupar com justiça social e equidade?”
“O que vocês querem dizer?”, perguntou Jesus, já incomodado com os quatro rabinos que interromperam a sua lição. Eles começaram: “Não é verdade que algumas virgens tinham mais óleo1 do que outras? Pode um tal estado das coisas ser permitido numa sociedade justa?” “Hmmm”, Jesus disse, “isto está começando a ficar interessante. Continuem.”
Se há alguma necessidade, continuou o Rabino Frank, “os outros não devem ir de encontro a ela?” O Rabino Dodd entrou na conversa: “Por que é permitido a essas cinco virgens sábias manter o óleo para si mesmas? Não deveriam elas abrir mão dele, em nome da justiça e da eqüidade?”
Jesus respondeu: “Eu vou fazer-lhes uma pergunta. Se as virgens sábias derem metade do seu óleo para as virgens tolas, não acabará acontecendo que, quando o noivo aparecer, não vai restar óleo algum no final das contas e todos serão deixados na escuridão?”
Então o Rabino Paulson elevou a voz. “Eu espero que você não vá apelar para a ganância”, ele falou para Jesus. “Essas virgens sábias têm uma obrigação social de não deixar as virgens tolas ficarem sem óleo”, ele disse. “Na verdade, as virgens tolas têm o direito de exigir uma ajuda de óleo!”
“Vocês ainda não responderam a minha pergunta”, falou Jesus. “Se as virgens sábias ajudarem as tolas, o noivo não vai ficar ainda pior por estar tudo escuro quando ele aparecer?”
“As virgens tolas não apenas têm o direito de exigir o óleo das virgens sábias, como também têm o direito de retirar óleo do próprio e apropriado Tesouro do Óleo, declarou Paulson, parecendo muito orgulhoso de si mesmo. Jesus, perplexo com a declaração, perguntou: Se elas pegarem das lojas, como irão pagar por ele?
“Elas têm um direito àquele óleo!”, gritaram o Rabino Frank e o Rabino Dodd. “Além do mais, eles emendaram, “mesmo que elas estejam apenas emprestando o óleo, no final nós simplesmente devemos a nós mesmos.”
Jesus não se deu por satisfeito. “Por que”, ele continuou, “todo mundo deve ser forçado a ficar no escuro porque algumas virgens não foram prudentes o bastante para trazer mais óleo? Não deveriam elas ser responsáveis pelos seus próprios julgamentos errados? Por que a tolice delas deve ser carregada por todos?”
Neste ponto, o Rabino Bush estourou de raiva. “Como você ousa satisfazer-se com tal status quo! Primeiro, aquelas virgens tolas foram vítimas, tendo em vista que não há suficiente óleo acessível, e não é correto que apenas alguns tenham todo o suprimento enquanto outros saem de mãos abanando!”
Ele continuou. “Segundo, a única solução justa é que as virgens sábias prestem ajuda às tolas, ou então as pessoas terão que viver na escuridão.”
“Hã, Jesus replicou, “eu acho que nós já havíamos concluído que se o seu plano for colocado em prática, todos vão ficar no escuro.”
O Rabino Dodd interveio: “O Rabino Frank e eu há muito acreditamos que o óleo deveria ser acessível para todos, e é por isso que estivemos a trabalhar para aumentar o acesso de todos ao óleo.” “Eu sei”, respondeu Jesus, secamente, “o seu esquema empurrou o preço do óleo para tão alto que apenas aqueles que foram sábios e prudentes com seu dinheiro podem ter acesso a ele no final. Agora está mais difícil obter óleo do que nunca.”
O Rabino Paulson avançou com um largo sorriso no rosto. “É por isso que nós temos um plano especial”, ele contou a Jesus. “Virgens tolas podem emprestar todo o dinheiro que quiserem do Rei Herodes, que planeja ele próprio tomar esse dinheiro emprestado do povo.”
“E como o pagamento irá funcionar?” perguntou Jesus, preocupado. “Parece que o povo estará em débito sem esperança de retorno. Vocês não disseram estar tomando do povo para emprestar para o povo? Não diz o Livro de Provérbios que o devedor é escravo do credor?”
“Não na nossa economia”, replicou com orgulho o Rabino Paulson. “Nós estaremos em dívida conosco mesmos.”
E Jesus chorou.


NOTAS:
1 “óleo” = no original em inglês, "oil", palavra que pode ter significados diversos de acordo com o contexto: óleo de cozinha ou de carro, ou petróleo. O autor faz um jogo de palavras intraduzível ao brincar com o significado bíblico original (azeite, que na época de Jesus  também usado em iluminação) e o significado mais usual em Economia (petróleo).

sábado, 22 de agosto de 2009

Surfista Prateado - Parábola

Em cada civilização, em cada período da história, é verdade dizer: “Mostrem-me o tipo de deus que vocês possuem, e eu lhes direi que tipo de humanidade vocês possuem”.
– Emil Brunner,

teólogo cristão

Surfista Prateado – Parábola
– Stan Lee & Moebius


Reprodução integral da graphic novel Surfista Prateado #11 – Parábola, de Stan Lee & Moebius (Abril, 1989).




Para os interessados, duas excelentes resenhas estão disponíveis aqui e aqui (sendo a segunda voltada para educadores).

quarta-feira, 13 de maio de 2009

O Conto dos Três Irmãos

O Conto dos Três Irmãos

Texto extraído do livro Os Contos de Beedle, o Bardo, de J.K. Rowling (Rocco, 2008)

Era uma vez três irmãos que estavam viajando por uma estrada deserta e tortuosa ao anoitecer... Depois de algum tempo, os irmãos chegaram a um rio fundo demais para vadear e perigoso demais para atravessar a nado. Os irmãos, porém, eram versados em magia, então simplesmente agitaram as mãos e fizeram aparecer uma ponte sobre as águas traiçoeiras. Já estavam na metade da travessia quando viram o caminho bloqueado por um vulto encapuzado.
E a Morte falou. Estava zangada por terem lhe roubado três vítimas, porque o normal era os viajantes se afogarem no rio. Mas a Morte foi astuta. Fingiu cumprimentar os três irmãos por sua magia, e disse que cada um ganhara um prêmio por ter sido inteligente o bastante para lhe escapar.
Então, o irmão mais velho, que era um homem combativo, pediu a varinha mais poderosa que existisse: uma varinha que sempre vencesse os duelos para seu dono, uma varinha digna de um bruxo que derrotara a Morte! Ela atravessou a ponte e se dirigiu a uma árvore Anciã1, um vetusto sabugueiro na margem do rio, fabricou uma varinha de um galho da árvore e entregou-a ao irmão mais velho.
Então, o segundo irmão, que era um homem arrogante, resolveu humilhar ainda mais a Morte e pediu o poder de restituir a vida aos que ela levara. Então a Morte apanhou uma pedra da margem do rio e entregou-a ao segundo irmão, dizendo-lhe que a pedra tinha o poder de ressuscitar os mortos.
Então, a Morte perguntou ao terceiro e mais moço dos irmãos o que queria. O mais moço era o mais humilde e também o mais sábio dos irmãos, e não confiou na Morte. Pediu, então, algo que lhe permitisse sair daquele lugar sem ser seguido por ela. E a Morte, de má vontade, lhe entregou a própria Capa da Invisibilidade.
Então, a Morte se afastou para um lado e deixou os três irmãos continuarem viagem e foi o que eles fizeram, comentando, assombrados, a aventura que tinham vivido e admirando os presentes da Morte.
No devido tempo, os irmãos se separaram, cada um tomou um destino diferente.
O primeiro irmão viajou uma semana ou mais e, ao chegar a uma aldeia distante, procurou um colega bruxo com quem tivera uma briga. Armado com a varinha de sabugueiro, a Varinha das Varinhas, ele não poderia deixar de vencer o duelo que se seguiu. Deixando o inimigo morto no chão, o irmão mais velho dirigiu-se a uma estalagem, onde se gabou, em altas vozes, da poderosa varinha que arrebatara da própria Morte, e de que a arma o tornava invencível.
Na mesma noite, outro bruxo aproximou-se sorrateiramente do irmão mais velho enquanto dormia em sua cama, embriagado pelo vinho. O ladrão levou a varinha e, para se garantir, cortou a garganta do irmão mais velho.
Assim, a Morte levou o primeiro irmão.
Entrementes, o segundo irmão viajou para a própria casa, onde vivia sozinho. Ali, tomou a pedra que tinha o poder de ressuscitar os Mortos1 e virou-a três vezes na mão. Para sua surpresa e alegria, a figura de uma moça que tivera esperança de desposar antes de sua morte precoce surgiu instantaneamente diante dele. Contudo, ela estava triste e fria, como que separada dele por um véu. Embora tivesse retornado ao mundo dos mortais, seu lugar não era ali, e ela sofria. Diante disso, o segundo irmão, enlouquecido pelo desesperado desejo, matou-se para poder verdadeiramente se unir a ela.
Assim, a Morte levou o segundo irmão.
Embora a Morte procurasse o terceiro irmão durante muitos anos, jamais conseguiu encontrá-lo. Somente quando atingiu uma idade avançada foi que o irmão mais moço despiu a Capa da Invisibilidade e deu-a de presente ao filho. Acolheu, então, a Morte como uma velha amiga e acompanhou-a de bom grado, e, iguais, partiram desta vida.
 

NOTAS:
1 Estas "correções" foram feitas baseadas na edição manuscrita original, conforme a resenha da Amazon.com.
 

A moral de O Conto dos Três Irmãos não poderia ser mais clara: os esforços humanos para evadir ou superar a morte estão sempre fadados ao desapontamento. O terceiro irmão da história («o mais humilde e também o mais sábio») é o único que compreende isso, pois, tendo escapado uma vez da morte, por um triz, o melhor que poderia esperar era adiar o próximo encontro o máximo possível. O mais moço sabe que zombar da Morte – envolver-se em violência, como o primeiro irmão, ou ocupar-se da sombria arte da necromancia, como o segundo irmão – significa medir forças com um inimigo ardiloso que não pode perder. (...)
Em última análise, a busca pela Varinha das Varinhas corrobora uma observação que tive oportunidade de fazer muitas vezes no curso de minha longa vida: que os humanos têm um pendor para escolher precisamente as coisas que lhes fazem mal.
Qual de nós, porém, teria revelado a sabedoria do terceiro irmão, se lhe fosse oferecido escolher o melhor presente da Morte? Bruxos e trouxas são igualmente imbuídos de sede de poder; quantos teriam resistido à "Varinha do Destino"? Que ser humano, tendo perdido um ente amado, poderia resistir à tentação da Pedra da Ressurreição? Mesmo eu, Alvo Dumbledore, acharia mais fácil recusar a Capa da Invisibilidade; o que prova apenas que, esperto como sou, continuo sendo um bobalhão tão grande quanto os demais.
– Alvo Dumbledore


sábado, 18 de abril de 2009

BЯ - Salmo 150 - O Cosmos É O Seu Santuário

BЯ - Salmo 150 – O Cosmos É O Seu Santuário
– Ernesto Cardenal
Texto extraído e adaptado do livro Salmos, de Ernesto Cardenal (Civilização Brasileira, 1979).


Louvai ao Senhor no cosmos
Seu santuário
de um raio de 100.000 milhões de anos-luz
Louvai-O pelas estrelas
e pelos espaços interestelares
Louvai-O pelas galáxias
e pelos espaços intergaláticos
Louvai-O pelos átomos
e pelos vácuos interatômicos
Louvai-O com o violino e com a flauta
e com o saxofone
Louvai-O com os clarinetes e a trompa
com cornetas e trombones
com cornetins e trombetas
Louvai-O com violas e violoncelos
com pianos e pianolas
Louvai-O com blues e jazz
e com orquestras sinfônicas
com os spirituals dos negros e a 5ª de Beethoven
com guitarras e marimbas
Louvai-O com CD players
e com arquivos em MP3
Tudo o que respira louve ao Senhor
toda célula viva
Aleluia

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Cruzes voadoras

Uma pergunta que você começa a fazer a si mesmo é, ‘Será que nós seríamos a próxima civilização perdida?’. E eu penso que quando se olha para a nossa arrogância, nosso orgulho tecnológico, a crueldade e a depravação da civilização moderna, há um total desrespeito pelas tradições do passado. Nós de fato parecemos, em termos mitológicos, a próxima civilização perdida.
É o que as pirâmides me dizem. Que uma civilização pode alcançar um nível fantástico de avanço, e cair e ser esquecida, quase sem deixar vestígios de si, exceto por monumentos gigantescos que parecem emergir das névoas do passado, sem contexto ou antecedentes, apenas mistério puro e simples.
– Graham Hancock,

especialista em civilizações perdidas
em entrevista ao filme 10.000 A.C.


Cruzes voadoras
– Stella Carr



Texto extraído do livro Assombrassustos, de Stella Carr (Moderna, 1995).


A combinação de luzes coloridas do computador indica o código que eu devo usar. Aperto os botões com aquelas cores, e meu cartão magnético pula.
Pego o cartão e, seguindo os números, vou entrando pelos corredores do labirinto que é o prédio da escola. Em cada porta eu confiro a seqüência de cores. Se combinarem, eu introduzo o cartão e a porta se abre. Assim, os alunos novos como eu nunca se perdem, nem entram em salas erradas.
Os corredores pintados em branco-aluminizado lembram as paredes de antigos hospitais, do tempo em que as pessoas precisavam deles. Dizem que esses lugares eram tristes, sem cor, com pessoas doentes. Hoje isso já não existe, e os bancos de peças sobressalentes de agora são alegres e "arco-irisados". Já troquei um braço e duas pernas, mais ainda sou muito nova, e meu cérebro nunca foi transplantado.
Memórias preservadas em tubos de soluções químicas, extraídas dos cérebros mais geniais, são catalogadas e guardadas num laboratório especial da Área de Altos Estudos sobre Genes Humanos. Elas só são utilizadas em cursos de pós-graduação, depois de um exame para selecionar os alunos que estão num estágio bem avançado, a ponto de merecerem receber esse transplante de instrução extra. Nós, alunos comuns, temos que dar duro para aprender com o nosso próprio esforço e "agitar" os neurônios. O cérebro é como os músculos do corpo. Não pode ficar parado ou se atrofia.
A seta vermelha manda que eu siga à direita. Obedeço. É a primeira vez que entro numa estudoteca de classe superior. Fui aprovada nos testes e pude escolher minhas matérias. Optei pelo estudo-pesquisa de civilizações pré-atomianas.
Há muitas lendas sobre os tempos pré-atomianos, uma parte praticamente irrecuperável da Antigüidade – por causa da longa contaminação –, que acabou sendo totalmente soterrada nesses dois últimos milênios.
A mais incrível é a crença em "cruzes voadoras", que as pessoas supersticiosas ainda cultuam. Eram uma espécie de "pássaro de metal", com duas asas fixas. O objeto se movia numa só direção, e, dizem os esotéricos, era movido a jato. Alguns crentes mais fanáticos até afirmam que os modelos mais antigos tinham motores de pás nas asas, que rodavam com o vento.
É claro que os cientistas sérios riem disso. Como um objeto mais pesado que o ar poderia se manter suspenso, só rodando as pás com motores, em uma época que se desconhecia o controle molecular do magnetismo? Mas um pequeno grupo deles afirma que os pré-atomianos conseguiam isso e tinham esse tipo de veículo.
Eu não tenho preconceitos contra esses arquifísicos, e acho que tudo deve ser investigado. Por isso vou consultar uns disquetes figuro-sonoro-holográficos, que estão no arquivo morto, e já fora de uso, na sala especializada em historiografia pré-atomiana. Espero fazer alguma descoberta interessante!
O corredor da seta vermelha chegou ao fim. Abro a porta da sala com meu cartão-chave pessoal e me apresento ao mestre computador historiológico, digitando minha senha. Os botões luminosos me aceitam, confirmando meus horários. Terei aulas todos os dias.
Foi fácil conseguir vaga nesse setor. O estudo do passado não atrai muitos estudantes, são todos futuralistas. «Tudo o que existe, já se sabe», dizem, «está contido nos mestres computadores.» É só partir daí para as novas descobertas, e é tudo o que interessa.
O mestre computador historiológico é fantástico! Ele tem possibilidades quase infinitas de combinações para serem estudadas e cruzadas. Eu tenho aprendido coisas incríveis sobre os pré-atomianos. Parece que havia uma agressividade constante entre os povos daquele tempo, que se dividiam em pedaços separados de terra chamados "países", com linguagem, costumes e governos diferentes. Até fisicamente eles tinham uma estranha variedade de aparência, e chamavam isso de raças. Não controlavam o código genético, é a única explicação possível. Competiam entre eles (foi esse o termo usado pelo computador) e isso foi a provável causa da destruição geral.


Estou ficando fascinada pelos meus estudos. Mal saio da sala para me alimentar. Tenho descoberto coisas incríveis, cruzando dados do arquivo morto, e fico até com medo de falar sobre isso com meus colegas. Eles já me olham como um ser estranho, um desses fanáticos anticientistas, uma espécie de "charlatão" (o termo que eu encontrei no dicionário de palavras mortas armazenadas no mestre computador), e parece que se refere aos que enganam o povo com falsas ciências.
Enquanto eu não puder provar com minhas pesquisas arquiatomianas as minhas teorias sobre essa era, guardo segredo sobre os dados surpreendentes que achei.


Os pré-atomianos viviam em tubos furados de uma mistura estranha de tipos de material calcário esfarinhado, montado sobre um esqueleto de ferro. Chamavam a isso de "concreto armado". Diziam ser extremamente resistente. Eram enormes tubos, muito altos e cheios de furos, por onde entrava o ar contaminado. Isso porque a Terra tinha sido envenenada por todo tipo de poluição. O motivo de eles terem permitido isso é desconhecido. Parece ter havido um mau uso da natureza. Não existiam filtros purificadores automáticos como agora, e eles acabaram destruindo totalmente a flora e a fauna. Os pré-atomianos deviam ter uma inteligência muito pouco desenvolvida!
Outra informação que consta dessa era, e é difícil de acreditar, é que as pessoas passavam fome, não se instruíam, ficavam doentes e não faziam progresso. Tudo isso por causa da inexplicável troca de uma coisa a que eles davam o nome geral de "dinheiro". Ele não era real, e sim uma espécie de matemática fantasma, representada por alguma bugiganga de metal, bolinhas, continhas, ou seja lá o que fosse, ou números que os primitivos passavam de um computador para outro, e que umas pessoas tinham e outras não. A razão dessa confusa maneira de equilibrar a vida é desconhecida. Pessoas juntavam essa unidade fantasma, como crianças colecionam hologravuras, enquanto a vegetação e os animais morriam e as cidades se destruíam. E toda a civilização foi arrasada.
Um suicídio coletivo inexplicável! Se não foi algum tipo de ritual de alguma crença muito primária (dinheiro só podia ser um totem sagrado), está fora de nossa compreensão.
Isso tudo leva a uma avaliação de inteligência rudimentar e sem raciocínio lógico.
Que o povo dessa civilização brincou com o átomo, sem a mínima compreensão do potencial dele, está provado pela sua destruição.


Hoje fiz uma descoberta desconcertante. Os pré-atomianos tinham uma linguagem em código, de cerca de vinte e seis sinais, que se repetiam iguais em várias regiões do planeta, e que se ligavam em pequenos blocos desiguais em tamanho, formando tiras de caracteres. Parece que era um tipo de comunicação muito antiga e primitiva. Mas isso torna inegável que eles se entendiam de alguma forma mais evoluída do que apenas números e as tais bolinhas, continhas ou pedacinhos de metais.
Felizmente, tudo indica uma forma de linguagem que talvez possa ser decifrada e traduzida, tornando a arqueologia pré-atomiana um estudo sério, algo mais que uma coleção de lendas supersticiosas.


O mestre computador me indicou um lugar para escavações. A descoberta de um tipo de linguagem pré-atomiana estimulou o setor de altos estudos a levar adiante minha pesquisa, agora com todo o apoio e recursos necessários para penetrarmos nessa noite escura do passado.
Segundo velhíssimos registros, até hoje não considerados cientificamente, há uma lenda que fala de um tesouro de valor inestimável, o maior valor da civilização pré-atomiana. Algo que não tinha nada a ver com aquelas tais unidades de metaizinhos, bolinhas e continhas.
Parece que, sabendo que iam ser exterminados, alguns pré-atomianos quiseram deixar uma herança para as civilizações futuras. E escolheram um lugar para isso.
Assim, consegui reunir algumas pessoas curiosas como eu para me ajudarem nas escavações. Vou começar a escrever um diário de campo.






Diário de campo




Primeiro dia: As escavações começaram. Esse lugar foi abandonado por causa de radiações. Tivemos que usar roupas especiais para a pesquisa.


Segundo dia: Os robôs escavadores abriram a primeira camada de terra e rochas, mas não encontraram nada. Só cinzas, como se esperava. A radiação já devia ter se dispersado, depois de todos aqueles séculos, mas nós nos mantivemos à distância e trabalhamos por controle remoto. É um cuidado que já vem de gerações e faz parte de nossos hábitos em pesquisas.


Terceiro dia: Hoje encontramos uns tubos completamente fechados, numa profundidade de vinte metros. O nível de radioatividade era de “alerta”. Os robôs transportaram os tubos para um lugar seguro e os desirradiaram. Estamos esperando o período de quarentena para abri-los. O entusiasmo é enorme e contagiante, mas a ordem é obedecer e manter a prudência, e não há como desobedecer num caso desses.
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Trigésimo dia: Finalmente vamos abrir os tubos. Estamos tremendamente ansiosos para saber qual é o “maior tesouro, de valor inestimável” da extinta civilização pré-atomiana, a herança que eles nos legaram, que sobreviveu a toda a vida no planeta. É o que sobrou de uma humanidade inteira!


Trigésimo primeiro dia: Estamos muito confusos e desnorteados. É que dentro desses tubos, guardados por todos esses anos e tão cuidadosamente preservados, encontramos apenas uma enorme quantidade de quadrados de certa matéria frágil e extinta chamada "papel". Os quadrados são costurados e têm uma capa dura. Estão cheios de sinais indecifráveis.
Vou desenhar aqui os sinais que estão marcados no rótulo desses objetos:


Livros


Será que algum dia decifraremos estes sinais? Só aí saberemos porque eles foram preservados como um tesouro.